segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Uso de Cannabis na Gestação e Amamentação: Riscos, Evidências e Recomendações Clínicas



1. Introdução

O uso de Cannabis durante a gestação e lactação é uma temática que desperta crescente atenção nas esferas clínica e regulatória, especialmente diante do aumento global da legalização da Cannabis medicinal e da percepção equivocada de sua segurança. Embora os canabinoides — como o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) — tenham propriedades terapêuticas reconhecidas, seu uso durante a gravidez e o aleitamento deve ser cuidadosamente avaliado à luz dos riscos potenciais ao desenvolvimento fetal e neonatal.

Nesse contexto, é fundamental que ginecologistas, obstetras, pediatras, neonatologistas e demais profissionais da saúde materno-infantil estejam bem informados e capacitados para orientar gestantes e lactantes com base nas melhores evidências científicas disponíveis, respeitando princípios éticos, de precaução e de segurança.


2. Riscos do Uso de Cannabis na Gestação e Amamentação

Organizações médicas de renome internacional, como o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), a Academy of Breastfeeding Medicine (ABM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), recomendam fortemente a evitação do uso de Cannabis durante a gestação e a amamentação, exceto em circunstâncias excepcionais e sob rigoroso acompanhamento clínico [1].

2.1 Exposição Fetal e Neonatal aos Canabinoides

  • Atravessamento Transplacentário: O THC é lipofílico e atravessa facilmente a barreira placentária, podendo interferir com a formação de circuitos neurológicos em desenvolvimento. O sistema endocanabinoide fetal — envolvido em processos como proliferação neural, migração celular e sinaptogênese — é particularmente sensível a alterações exógenas [2].

  • Excreção no Leite Materno: O THC e outros canabinoides também são detectáveis no leite humano por períodos prolongados após a exposição materna. Estudos sugerem que a concentração de THC no leite materno pode ser de 6 a 8 vezes maior do que no plasma materno, com potencial para bioacumulação no lactente [3].

2.2 Potenciais Efeitos Adversos no Desenvolvimento Fetal e Infantil

Estudos observacionais e coortes longitudinais têm demonstrado associações entre a exposição pré e perinatal à Cannabis e múltiplos desfechos clínicos adversos:

  • Baixo Peso ao Nascer e Prematuridade: Há aumento do risco relativo para restrição de crescimento intrauterino (RCIU), parto prematuro (<37 semanas) e baixo peso ao nascer (<2.500g), mesmo após o controle para fatores confundidores como tabagismo e etilismo [4].

  • Déficits no Neurodesenvolvimento: A exposição intrauterina ao THC está associada a alterações persistentes em domínios como:

    • Atenção e controle inibitório (déficit de atenção, impulsividade);

    • Memória de trabalho e funções executivas;

    • Desenvolvimento da linguagem e desempenho escolar [5,6].

  • Alterações Comportamentais e Psiquiátricas: Crianças expostas podem apresentar maior prevalência de transtornos de conduta, ansiedade, e sintomas depressivos na infância e adolescência.

  • Outros desfechos potenciais: Embora a evidência seja menos robusta, há relatos de associações com:

    • Anomalias congênitas (particularmente cardiovasculares e do tubo neural);

    • Aumento do risco de morte súbita do lactente (SIDS);

    • Distúrbios respiratórios neonatais [7].


3. Recomendações para Profissionais da Saúde Materno-Infantil

3.1 Abordagem Clínica Baseada em Evidências

É fundamental que os profissionais de saúde adotem uma abordagem acolhedora, livre de julgamentos e cientificamente embasada, para identificar, aconselhar e monitorar gestantes e lactantes que façam uso de Cannabis — seja recreativa, seja medicinal.

Principais recomendações:
  • Triagem e História Clínica Detalhada: Incluir perguntas específicas sobre uso de substâncias (inclusive fitoterápicos e Cannabis) nas consultas pré-natais e pediátricas.

  • Aconselhamento Informativo: Explicar que mesmo formas vaporizadas ou óleos com baixo teor de THC podem ter efeitos neurotóxicos. Destacar a ausência de dados robustos de segurança para qualquer forma de Cannabis durante a gestação e amamentação.

  • Substituição por Terapias Seguras: Para condições como náuseas graves, insônia, dor ou ansiedade, optar por intervenções não farmacológicas ou farmacológicas com perfil de segurança conhecido, como a doxilamina para hiperêmese gravídica ou psicoterapia para sintomas leves de ansiedade.

3.2 Situações de Exceção e Monitoramento Multidisciplinar

  • Em casos extremamente raros, como epilepsia refratária grave em gestantes que já faziam uso de Cannabis medicinal antes da concepção, o uso contínuo deve ser cuidadosamente ponderado por uma equipe multidisciplinar (neurologia, obstetrícia de alto risco, pediatria e farmacologia clínica).

  • Nesses casos, é imprescindível o monitoramento fetal e neonatal intensivo, além de documentação clínica rigorosa quanto à justificativa terapêutica, avaliação dos riscos e consentimento informado.


4. Oportunidade de Educação no Dia da Gestante (15 de Agosto)

O Dia da Gestante, comemorado em 15 de agosto, é uma oportunidade estratégica para reforçar a importância do cuidado pré-natal qualificado e da educação em saúde baseada em evidências. O tema do uso de substâncias — incluindo Cannabis — deve ser abordado de forma empática, clara e acessível, promovendo um diálogo franco sobre os riscos e incentivando decisões informadas.

Profissionais de saúde podem aproveitar a data para realizar ações educativas em ambulatórios, maternidades e campanhas comunitárias, conscientizando sobre os efeitos adversos do uso de Cannabis na gestação e lactação, além de orientar sobre alternativas terapêuticas seguras.


5. Conclusão

Embora a Cannabis medicinal represente um avanço terapêutico importante em várias áreas da medicina, sua utilização durante a gestação e a lactação permanece contraindicada na maioria das situações clínicas, devido aos potenciais efeitos deletérios sobre o desenvolvimento fetal e infantil. A prioridade deve ser sempre a segurança do binômio mãe-bebê.

Cabe aos profissionais da saúde materno-infantil o papel de educar, prevenir e orientar com base em evidências, promovendo cuidados centrados na paciente e garantindo que quaisquer decisões sobre o uso de Cannabis nesse período sejam tomadas com a máxima responsabilidade ética e científica.


6. Referências Bibliográficas

[1] American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). (2017). Marijuana Use During Pregnancy and Lactation. Committee Opinion No. 722. https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/committee-opinion/articles/2017/10/marijuana-use-during-pregnancy-and-lactation

[2] Metz, T. D., & Ryan, S. A. (2020). Marijuana Use in Pregnancy and Lactation: A Review of the Latest Evidence. Obstetrics & Gynecology, 135(5), 1158-1168. https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2020/05000/Marijuana_Use_in_Pregnancy_and_Lactation__A_Review.21.aspx

[3] Djordjevic, J., & Djordjevic, M. (2019). Cannabis use in pregnancy and lactation: a systematic review. Journal of Perinatal Medicine, 47(9), 927-935. https://www.degruyter.com/document/doi/10.1515/jpm-2019-0110/html

[4] Ryan, S. A., & Metz, T. D. (2020). Marijuana Use During Pregnancy and Lactation: ACOG Committee Opinion, Number 722. Obstetrics & Gynecology, 135(5), 1158-1168. https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2020/05000/Marijuana_Use_in_Pregnancy_and_Lactation__A_Review.21.aspx

[5] Conner, S. N., & St. Clair, C. M. (2020). Cannabis Use in Pregnancy and Lactation. Clinics in Perinatology, 47(2), 247-2261. https://www.perinatal.theclinics.com/article/S0095-5108(20)30006-0/fulltext

[6] Goldschmidt, L., Richardson, G. A., Willford, W. O., & Day, N. L. (2000). Prenatal marijuana exposure and intelligence in 10-year-old children. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 39(10), 1222-1228. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11026189/

[7] Committee on Obstetric Practice. (2017). Marijuana Use During Pregnancy and Lactation. Obstetrics & Gynecology, 130(4), e205-e209. https://journals.lww.com/greenjournal/Fulltext/2017/10000/Marijuana_Use_During_Pregnancy_and_Lactation.38.aspx

[8] Stockings, E., Zagrabbe, K., & Ghasemi, M. (2018). Cannabis and cannabinoids for the treatment of medical conditions: a systematic review. Medical Journal of Australia, 208(10), 455-461. 

Cannabis Medicinal e Cardiologia: Implicações para a Prática Clínica



1. Introdução

Com o avanço das evidências científicas e o aumento do interesse clínico no uso terapêutico da Cannabis, torna-se imperativo que cardiologistas e profissionais da saúde cardiovascular estejam atualizados sobre os efeitos dos canabinoides no sistema cardiovascular. A crescente disponibilidade de produtos à base de Cannabis no Brasil, regulamentados pela ANVISA (RDC nº 327/2019), e a demanda crescente por abordagens terapêuticas integrativas, especialmente em pacientes com doenças crônicas, colocam os médicos frente ao desafio de incorporar esse conhecimento à prática clínica.

Este informativo tem como objetivo oferecer uma visão abrangente e embasada sobre os potenciais benefícios e riscos do uso da Cannabis medicinal na cardiologia, em alusão ao Dia do Cardiologista (14 de agosto), reconhecendo o papel estratégico desses profissionais na avaliação da segurança e eficácia do tratamento com canabinoides em populações com risco cardiovascular.


2. Efeitos dos Canabinoides no Sistema Cardiovascular

O Sistema Endocanabinoide (SEC), composto por receptores (CB1, CB2), ligantes endógenos (anandamida, 2-AG) e enzimas metabolizadoras, está presente em múltiplos tecidos, incluindo o miocárdio, endotelio vascular e centros reguladores autonômicos. Ele modula funções como pressão arterial, tônus vascular, frequência cardíaca e resposta inflamatória sistêmica [1]. Os fitocanabinoides mais estudados — o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) — interagem com o SEC de formas distintas e, por vezes, opostas, com implicações clínicas relevantes.


2.1 Canabidiol (CBD): Potencial Terapêutico Cardiovascular

O CBD é um canabinoide não psicoativo, com baixo risco de efeitos adversos graves, e vem sendo investigado pelo seu papel anti-inflamatório, ansiolítico, antioxidante e vasorregulador. Esses efeitos são promissores no contexto de diversas condições cardiovasculares.

Evidências Científicas:

  • Redução da Pressão Arterial: Em estudo randomizado com voluntários saudáveis, o CBD reduziu significativamente a pressão arterial sistólica e diastólica em repouso e em resposta ao estresse, possivelmente por promover vasodilatação mediada por óxido nítrico [2].

  • Proteção Endotelial: O estresse oxidativo endotelial é fator chave na aterogênese. O CBD demonstrou proteger células endoteliais da disfunção oxidativa, sugerindo um papel na prevenção da progressão da doença aterosclerótica [3].

  • Atividade Anti-inflamatória: A inflamação crônica está associada à insuficiência cardíaca, aterosclerose e hipertensão. O CBD inibe a produção de citocinas inflamatórias (como TNF-α e IL-6), reduzindo o risco de complicações cardiovasculares associadas à inflamação sistêmica [4].

  • Outros Benefícios Potenciais:

    • Modulação autonômica do sistema nervoso simpático.

    • Melhora da qualidade do sono e controle de ansiedade, que impactam indiretamente a saúde cardiovascular.

    • Redução do estresse oxidativo miocárdico em modelos animais.


2.2 Tetrahidrocanabinol (THC): Considerações de Segurança

O THC é o principal composto psicoativo da Cannabis e possui efeito agonista parcial nos receptores CB1, cuja ativação no sistema cardiovascular pode ter repercussões clínicas, especialmente em pacientes vulneráveis.

Riscos Potenciais:

  • Taquicardia e Hipotensão Ortostática: O uso de THC está associado a aumento da frequência cardíaca e redução da resistência vascular periférica, podendo causar sintomas como tontura e síncope, sobretudo em idosos ou pacientes com disfunção autonômica [5].

  • Eventos Cardiovasculares Agudos: Casos raros, porém descritos, de infarto agudo do miocárdio, arritmias e AVC têm sido relatados após o uso recreativo ou medicinal de Cannabis com alta concentração de THC. Acredita-se que mecanismos como vasoespasmo coronariano, aumento da demanda miocárdica e agregação plaquetária possam estar envolvidos [6].

  • Contraindicações Relativas:

    • Histórico de arritmias não controladas.

    • Doença arterial coronariana instável.

    • Uso concomitante de simpaticomiméticos.

    • Cardiomiopatias em fase descompensada.


3. Implicações Práticas para Cardiologistas

Dado o cenário de expansão do uso medicinal da Cannabis no Brasil, os cardiologistas assumem um papel central na avaliação da elegibilidade e monitoramento dos pacientes. A seguir, orientações práticas para incorporar o conhecimento sobre canabinoides à rotina clínica:

Avaliação Inicial:

  • História cardiovascular detalhada, incluindo risco aterosclerótico global.

  • Revisão de comorbidades e interações medicamentosas.

  • Avaliação do uso prévio de Cannabis (recreativa ou medicinal).

Monitoramento:

  • Pressão arterial e frequência cardíaca (em repouso e ortostatismo).

  • Eletrocardiograma (ECG) basal e, se indicado, Holter.

  • Vigilância para sintomas de intolerância ou arritmias.

Interações Medicamentosas:

  • O CBD pode inibir enzimas do citocromo P450, como a CYP3A4 e CYP2C9, afetando fármacos como varfarina, amiodarona e alguns beta-bloqueadores.

  • Monitorar INR, pressão arterial e níveis séricos conforme a medicação em uso.

Educação Médica Contínua:

  • Atualização sobre legislações (como a RDC 660/2022).

  • Formação em prescrição consciente e individualizada de canabinoides.

  • Discussão interdisciplinar com neurologistas, psiquiatras, clínicos e farmacologistas.


4. Conclusão

A Cannabis medicinal representa uma ferramenta terapêutica promissora, mas que exige conhecimento técnico e discernimento clínico, especialmente no manejo de pacientes com risco cardiovascular. O CBD demonstra potencial protetor e modulador em múltiplas frentes, enquanto o THC requer uso criterioso e supervisão adequada. Ao integrar esse conhecimento à prática clínica, cardiologistas estarão mais bem preparados para oferecer cuidados personalizados, seguros e baseados em evidências, alinhados com os avanços da medicina integrativa contemporânea.

5. Referências Bibliográficas

[1] Pacher, P., & Kunos, G. (2013). Modulating the endocannabinoid system in human health and disease: successes and failures. FEBS Journal, 280(9), 1918-1941. https://febs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/febs.12242

[2] Jadoon, K. A., Tan, G. D., & O'Sullivan, S. E. (2017). A single dose of cannabidiol reduces blood pressure in healthy volunteers in a randomized crossover study. JCI Insight, 2(12), e93760. https://insight.jci.org/articles/view/93760

[3] Stanley, C. P., Hind, W. H., & O'Sullivan, S. E. (2013). Is the endocannabinoid system a viable target for treating hypertension?. British Journal of Pharmacology, 170(5), 947-958. https://bpspubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/bph.12349

[4] Atalay, S., Jarocka-Karpowicz, I., & Skrzydlewska, E. (2020). Antioxidative and Anti-Inflammatory Properties of Cannabidiol. Antioxidants, 9(1), 21. https://www.mdpi.com/2076-3921/9/1/21

[5] Pacher, P., Steffens, S., Borsodi, G., & Kunos, G. (2005). The endocannabinoid system as an emerging therapeutic target in cardiovascular disease. Pharmacological Reviews, 57(4), 505-531. https://pharmrev.aspetjournals.org/content/57/4/505.long

[6] Pacher, P., & Kunos, G. (2013). Modulating the endocannabinoid system in human health and disease: successes and failures. FEBS Journal, 280(9), 1918-1941. https://febs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/febs.12242

[7] National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. (2017). The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids: The Current State of Evidence and Recommendations for Research. The National Academies Press. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O Uso da Cannabis Medicinal no Tratamento do Transtorno Opositor Desafiador (TOD): Uma Revisão das Evidências dos Últimos 10 Anos



Resumo

O Transtorno Opositor Desafiador (TOD) é uma condição neuropsiquiátrica que afeta crianças e adolescentes, caracterizada por um padrão persistente de comportamento desafiador, desobediente e hostil. O tratamento convencional envolve abordagens psicoterapêuticas e, em alguns casos, farmacoterapia, que pode apresentar limitações e efeitos adversos. Nos últimos anos, a cannabis medicinal, especialmente o canabidiol (CBD), tem emergido como uma área de interesse para o tratamento de diversos transtornos psiquiátricos. Esta revisão tem como objetivo analisar as evidências científicas dos últimos 10 anos sobre o uso da cannabis medicinal no tratamento do TOD, focando em sua eficácia, segurança e nas lacunas de pesquisa existentes. Embora a pesquisa direta sobre TOD seja limitada, evidências de estudos com transtornos comórbidos, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), sugerem um potencial terapêutico dos canabinoides na modulação de sintomas como irritabilidade, agressão e hiperatividade, que são centrais no TOD. Conclui-se que, apesar dos indicativos promissores, são necessários mais ensaios clínicos randomizados e controlados para estabelecer a eficácia e a segurança da cannabis medicinal como uma opção terapêutica para o TOD.

1. Introdução

O Transtorno Opositor Desafiador (TOD) é definido pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como um padrão recorrente de comportamento negativista, desafiador, desobediente e hostil para com figuras de autoridade, com duração de pelo menos seis meses. A prevalência do TOD é estimada entre 1% e 11%, com uma média de 3,3% [1]. A condição pode causar prejuízos significativos no funcionamento social, acadêmico e familiar da criança ou adolescente, além de aumentar o risco para o desenvolvimento de outros transtornos, como o Transtorno de Conduta e transtornos de ansiedade e humor na vida adulta [2].
O tratamento padrão para o TOD baseia-se em intervenções psicossociais, como treinamento de pais em manejo de comportamento, terapia individual e familiar, e programas de treinamento de habilidades sociais para a criança. A farmacoterapia não é considerada um tratamento de primeira linha, mas pode ser utilizada para tratar comorbidades ou sintomas-alvo graves, como agressividade. No entanto, os medicamentos utilizados, como estimulantes, antipsicóticos e estabilizadores de humor, podem estar associados a efeitos colaterais significativos [3].
Neste contexto, a busca por novas abordagens terapêuticas tem levado ao interesse crescente na cannabis medicinal. A planta Cannabis sativa contém mais de 100 canabinoides, sendo o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) os mais estudados. O sistema endocanabinoide (SEC), presente no corpo humano, desempenha um papel fundamental na regulação de processos como humor, sono, apetite, dor e resposta ao estresse, e a interação dos canabinoides com este sistema é a base para seu potencial terapêutico [4].
Esta revisão tem como objetivo consolidar e analisar as pesquisas científicas publicadas nos últimos 10 anos sobre o uso da cannabis medicinal no tratamento do TOD, com foco em estudos clínicos, revisões sistemáticas e pesquisas em transtornos comórbidos que compartilham sintomas com o TOD.

2. Mecanismo de Ação dos Canabinoides e o Sistema Endocanabinoide

O sistema endocanabinoide (SEC) é um complexo sistema de sinalização lipídica presente em mamíferos, que desempenha um papel crucial na manutenção da homeostase fisiológica e cognitiva. Ele é composto por ligantes endógenos (endocanabinoides), como a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG), receptores canabinoides (principalmente CB1 e CB2), e enzimas responsáveis pela síntese e degradação desses endocanabinoides [5].
Os receptores CB1 são abundantemente expressos no sistema nervoso central (SNC), especialmente em áreas envolvidas na regulação do humor, memória, cognição, dor e movimento, como o córtex, hipocampo, gânglios da base e cerebelo. Os receptores CB2 são encontrados predominantemente em células do sistema imunológico e em tecidos periféricos, onde modulam a inflamação e a resposta imune [6].
Os fitocanabinoides, como o THC e o CBD, interagem com o SEC de diferentes maneiras. O THC é um agonista parcial dos receptores CB1 e CB2, o que explica seus efeitos psicoativos e terapêuticos. Já o CBD possui uma farmacologia mais complexa; ele tem baixa afinidade pelos receptores CB1 e CB2, mas pode modular a atividade do SEC indiretamente, por exemplo, inibindo a recaptação e a degradação de endocanabinoides, aumentando assim seus níveis sinápticos. Além disso, o CBD interage com outros alvos moleculares, como receptores de serotonina (5-HT1A), receptores vaniloides (TRPV1) e receptores de adenosina, o que contribui para seus efeitos ansiolíticos, antidepressivos, anti-inflamatórios e neuroprotetores [7, 8].
No contexto do TOD, a disfunção do SEC pode estar implicada na desregulação emocional, impulsividade e agressividade. A modulação do SEC por canabinoides pode, teoricamente, ajudar a restaurar o equilíbrio nesses sistemas, aliviando os sintomas comportamentais. Por exemplo, a interação do CBD com o receptor 5-HT1A pode explicar seus efeitos ansiolíticos e na regulação do humor, que são relevantes para a redução da irritabilidade e da reatividade emocional observadas no TOD [9].

3. Atualizações da Pesquisa (Últimos 10 Anos) sobre Cannabis Medicinal no Tratamento do TOD

A pesquisa sobre o uso da cannabis medicinal no tratamento de transtornos neuropsiquiátricos tem crescido significativamente na última década. Embora estudos específicos e ensaios clínicos randomizados focados exclusivamente no TOD ainda sejam limitados, há evidências emergentes e observações clínicas que sugerem um potencial benefício, especialmente em sintomas comportamentais que se sobrepõem ao TOD, como irritabilidade, agressão e hiperatividade, frequentemente observados em comorbidades como o TEA e o TDAH.

3.1. Achados em Transtornos Relacionados e Sintomas Comuns:

•Irritabilidade e Agressão: Vários estudos, muitos deles focados em crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), têm investigado o papel do CBD na redução da irritabilidade e comportamentos agressivos. Pesquisas recentes (e.g., estudos de 2024 e 2025 sobre CBD para irritabilidade e agressão em ASD) indicam que o CBD pode ser útil na modulação desses sintomas [10, 11, 12]. Dado que a irritabilidade é um sintoma central do TOD, esses achados são promissores e sugerem uma área para futuras investigações diretas no TOD.
•Comorbidades (TDAH e TEA): O TOD frequentemente coexiste com TDAH e TEA. Estudos sobre cannabis medicinal nessas condições, embora não diretamente sobre TOD, fornecem insights relevantes. Por exemplo, pesquisas sobre o uso de canabinoides em TDAH e TEA têm explorado a melhora em sintomas como hiperatividade, impulsividade e problemas de atenção, que podem contribuir para os comportamentos desafiadores do TOD. Um estudo de prova de conceito (2021) explorou a eficácia potencial da cannabis medicinal em participantes com TDAH e TOD, utilizando métodos mistos, indicando a necessidade de mais pesquisas nesta área [13, 14, 15].
•Segurança e Tolerabilidade: Estudos em populações pediátricas, principalmente em epilepsia refratária e TEA, têm demonstrado que o CBD é geralmente bem tolerado, com efeitos colaterais leves a moderados, como sonolência, diarreia e diminuição do apetite [16, 17]. A segurança do uso de canabinoides em crianças é uma preocupação primordial, e a pesquisa contínua é fundamental para estabelecer perfis de segurança robustos para diferentes condições e formulações.

3.2. Lacunas na Pesquisa e Necessidade de Ensaios Clínicos Específicos:

Apesar dos resultados promissores em sintomas relacionados e comorbidades, a literatura científica carece de ensaios clínicos randomizados e controlados especificamente desenhados para avaliar a eficácia e segurança da cannabis medicinal no tratamento primário do TOD. A maioria das evidências atuais é baseada em estudos observacionais, relatos de caso ou pesquisas focadas em outras condições com sintomas sobrepostos. Há uma clara necessidade de:
1.Ensaios Clínicos Randomizados e Controlados (RCTs): Para determinar a eficácia e segurança da cannabis medicinal especificamente para o TOD.
2.Padronização de Dosagens e Formulações: A falta de padronização dificulta a comparação entre estudos e a replicação de resultados.
3.Estudos de Longo Prazo: Para avaliar os efeitos a longo prazo do uso de canabinoides em crianças e adolescentes com TOD.

4. Conclusão

Nos últimos 10 anos, o interesse e a pesquisa sobre a cannabis medicinal para condições neuropsiquiátricas em crianças e adolescentes têm aumentado. Embora não haja ainda um corpo robusto de evidências de ensaios clínicos randomizados especificamente para o Transtorno Opositor Desafiador (TOD), os achados em comorbidades como o TEA e o TDAH, e em sintomas como irritabilidade e agressão, sugerem um potencial terapêutico. É crucial que futuras pesquisas se concentrem em estudos controlados e de longo prazo para estabelecer diretrizes claras para o uso da cannabis medicinal no manejo do TOD.

5. Referências Bibliográficas

[1] American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.
[2] Nock, M. K., Kazdin, A. E., & Kessler, R. C. (2007). Psychiatric disorders in children and adolescents: an epidemiologic perspective. Biological Psychiatry, 61(9), 1026-1032. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17475300/
[3] Farmer, C. A., & Loeber, R. (2018). Treatment of oppositional defiant disorder. In: Handbook of Clinical Child and Adolescent Psychology (pp. 1-20). Springer, Cham. https://link.springer.com/referenceworkentry/10.1007/978-3-319-92932-9_100-1
[4] Pacher, P., & Kunos, G. (2013). Modulating the endocannabinoid system in human health and disease: successes and failures. FEBS Journal, 280(9), 1918-1941. https://febs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/febs.12152
[5] Lu, H. C., & Mackie, K. (2016). An introduction to the endogenous cannabinoid system. Biological Psychiatry, 79(7), 516-525. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26698193/
[6] Howlett, A. C., Barth, F., Bonner, T. I., Cabral, G., Casellas, P., Devane, W. A., ... & Pertwee, R. G. (2002). International Union of Pharmacology. XXVII. Classification of cannabinoid receptors. Pharmacological Reviews, 54(2), 161-202. https://pharmrev.aspetjournals.org/content/54/2/161.long
[7] Ibeas Bih, C., Chen, T., Taylor, L., Tegenge, M. A., & Vaughan, C. W. (2015). Molecular targets of cannabidiol in the nervous system: a review. Neurotherapeutics, 12(3), 699-710. https://link.springer.com/article/10.1007/s13311-015-0377-3
[8] Crippa, J. A. S., Guimarães, F. S., Campos, A. C., & Zuardi, A. W. (2018). Translational investigation of the therapeutic potential of cannabidiol (CBD): toward a new class of anxiolytic, antidepressant, and antipsychotic drugs. Translational Psychiatry, 8(1), 1-11. https://www.nature.com/articles/s41398-018-0109-y
[9] Blessing, E. M., Steenkamp, M. M., Manzanares, J., & Marmar, C. R. (2015). Cannabidiol as a potential treatment for anxiety disorders. Neurotherapeutics, 12(4), 825-836. https://link.springer.com/article/10.1007/s13311-015-0387-1
[10] Cannabidiol for treatment of Irritability and Aggressive Behavior in Children and Adolescents with Autism Spectrum Disorder: background and methods of the cannabidiol study in children with autism spectrum disorder (CASCADA) trial. (2025). International Journal of Clinical Trials, 12(1), 828. https://www.ijclinicaltrials.com/index.php/ijct/article/view/828
[11] Cannabidiol (CBD) Treatment for Severe Problem Behaviors in Autistic Boys: A Randomized Clinical Trial. (2025). Journal of Autism and Developmental Disorders. https://link.springer.com/article/10.1007/s10803-025-06884-y
[12] Cannabidiol for treatment of Irritability and Aggressive Behavior in Children and Adolescents with Autism Spectrum Disorder. (2024). medRxiv. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2024.08.12.24311894v1.full-text
[13] Pharmacokinetics and Perceptions of Children and Young Adults Using Cannabis for ADHD and ODD: A Mixed-Methods Proof-of-Concept Study. (2021). PubMed. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34661540/
[14] Efficacy of cannabinoids in neurodevelopmental and neuropsychiatric disorders among children and adolescents: a systematic review. (2023). SpringerLink. https://link.springer.com/article/10.1007/s00787-023-02169-w
[15] Medical cannabis for children: Evidence and recommendations. (2023). Canadian Paediatric Society. https://cps.ca/en/documents/position/medical-cannabis-for-children-evidence-and-recommendations
[16] Uses of cannabinoids to treat behavioural problems in children and adolescents. (2021). The Royal Australian College of General Practitioners. https://www1.racgp.org.au/ajgp/2021/june/uses-of-cannabinoids-to-treat-behavioural-problems
[17] Efficacy and safety of medical cannabinoids in children. (2021). Nature.

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