1. Introdução
As doenças reumáticas compreendem um amplo espectro de patologias inflamatórias, autoimunes e degenerativas que acometem articulações, músculos, ossos e tecido conjuntivo. Entre as mais prevalentes destacam-se:
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Artrite Reumatoide (AR)
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Osteoartrite (OA)
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Espondiloartrites
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Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
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Fibromialgia
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Artrite Psoriásica
A dor crônica, inflamação persistente e rigidez articular são sintomas centrais dessas condições. Apesar do avanço terapêutico com DMARDs sintéticos e biológicos, muitos pacientes permanecem com dor residual, efeitos adversos relevantes ou intolerância medicamentosa.
Nesse contexto, os canabinoides vêm sendo estudados como adjuvantes terapêuticos devido à sua ação analgésica, anti-inflamatória e imunomoduladora.
2. Sistema Endocanabinoide (SEC)
O Sistema Endocanabinoide é composto por:
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Receptores canabinoides CB1 e CB2
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Endocanabinoides (anandamida e 2-AG)
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Enzimas de síntese e degradação
2.1 Receptor CB1
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Predominantemente no SNC
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Modulação da transmissão nociceptiva
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Redução da liberação de glutamato e substância P
2.2 Receptor CB2
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Expressão predominante em células imunes
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Regulação da inflamação
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Modulação da produção de citocinas pró-inflamatórias
Nas patologias reumáticas, há evidência de expressão aumentada de CB2 em sinóvia inflamada (Richardson et al., 2008), sugerindo papel terapêutico potencial.
3. Farmacodinâmica dos Principais Canabinoides
3.1 Δ9-THC (Tetrahidrocanabinol)
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Agonista parcial CB1 e CB2
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Analgésico central e periférico
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Redução da hiperalgesia
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Efeito antiespástico
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Modulação da resposta imune
Efeitos adversos dose-dependentes:
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Sedação
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Alterações cognitivas
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Taquicardia
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Ansiedade
3.2 CBD (Canabidiol)
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Baixa afinidade direta por CB1/CB2
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Modula receptor TRPV1
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Inibe recaptação de anandamida
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Ação anti-inflamatória via redução de TNF-α, IL-1β e IL-6
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Modulação de células Th17
O CBD apresenta perfil de segurança superior ao THC e é frequentemente utilizado como base terapêutica em doenças reumáticas.
3.3 Efeito Entourage
A interação entre fitocanabinoides, terpenos e flavonoides pode potencializar efeitos terapêuticos e modular eventos adversos (Russo, 2011).
4. Evidências Clínicas por Patologia
4.1 Artrite Reumatoide
Estudo randomizado (Blake et al., 2006) com extrato THC/CBD (Sativex®) demonstrou:
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Redução significativa da dor em repouso
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Melhora da qualidade do sono
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Redução da atividade inflamatória
Modelos animais mostram redução de:
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Sinovite
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Destruição articular
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Produção de citocinas inflamatórias
4.2 Osteoartrite
Evidências sugerem ação analgésica central e periférica. Estudos pré-clínicos demonstram modulação inflamatória e redução da sensibilização nociceptiva periférica.
Revisões sistemáticas indicam benefício principalmente na dor refratária.
4.3 Fibromialgia
A fibromialgia apresenta provável disfunção do SEC (hipótese de deficiência endocanabinoide clínica).
Estudos observacionais mostram:
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Redução da dor
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Melhora do sono
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Redução da ansiedade
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Diminuição do uso de opioides
(Fitzcharles et al., 2021)
4.4 Lúpus Eritematoso Sistêmico
Evidências ainda limitadas. Estudos experimentais sugerem potencial imunomodulador via CB2, mas dados clínicos são escassos.
5. Indicações Clínicas nas Doenças Reumáticas
A Cannabis Medicinal pode ser considerada como terapia adjuvante nos seguintes cenários:
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Dor crônica refratária
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Intolerância a opioides
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Neuropatia associada
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Distúrbios do sono
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Espasticidade associada
Não substitui DMARDs em doenças autoimunes.
6. Posologia e Estratégia Terapêutica
6.1 Princípio: “Start low, go slow”
Formulações orais (óleo sublingual)
CBD isolado:
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Início: 5–10 mg 1–2x/dia
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Titulação: aumento semanal de 5–10 mg
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Dose terapêutica usual: 20–100 mg/dia
THC/CBD combinado:
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Início: 1–2,5 mg THC à noite
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Titulação lenta
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Dose usual: 5–20 mg THC/dia (individualizada)
6.2 Formulações Inalatórias
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Início rápido
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Maior variabilidade farmacocinética
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Não primeira escolha em doenças reumáticas
6.3 Interações Medicamentosas
Canabinoides são metabolizados via CYP450:
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CYP3A4
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CYP2C9
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CYP2C19
Atenção com:
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Metotrexato
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Anticoagulantes
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Corticoides
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Biológicos
7. Segurança e Contraindicações
Contraindicações relativas:
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História de psicose
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Gestação
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Doença cardiovascular instável
Eventos adversos mais comuns:
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Boca seca
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Tontura
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Sonolência
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Alteração cognitiva transitória
8. Considerações Regulatórias
No Brasil, a ANVISA permite prescrição mediante RDC 327/2019.
Produtos com teor de THC >0,2% requerem prescrição tipo B.
9. Conclusão
A Cannabis Medicinal representa uma estratégia terapêutica promissora como adjuvante nas patologias reumáticas, especialmente na dor crônica refratária. Seu mecanismo envolve modulação nociceptiva central e periférica, além de ação imunomoduladora via receptor CB2.
Ainda há necessidade de ensaios clínicos robustos e padronização de doses, porém o perfil de segurança e o potencial de redução do uso de opioides tornam a terapia relevante na prática reumatológica contemporânea.
Referências Bibliográficas
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Blake DR et al. Cannabis-based medicine in the treatment of rheumatoid arthritis. Rheumatology (Oxford). 2006.
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Fitzcharles MA et al. Position Statement: Cannabis and cannabinoid use in rheumatic diseases. Arthritis Care Res. 2021.
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Richardson D et al. Characterisation of the cannabinoid receptor system in synovial tissue. Arthritis Res Ther. 2008.
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Russo EB. Taming THC: potential cannabis synergy. Br J Pharmacol. 2011.
-
Häuser W et al. European Pain Federation recommendations on cannabinoids. Eur J Pain. 2018.
-
Whiting PF et al. Cannabinoids for medical use: systematic review. JAMA. 2015.
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National Academies of Sciences. The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids. 2017.
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RDC 327/2019 – ANVISA.

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