segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

A Cannabis medicinal como uma opção eficaz para o tratamento de pacientes com dor crônica de difícil controle

Dor Crônica e Cannabis Medicinal


A dor crônica afeta aproximadamente 20,5% da população mundial, ou seja, dois bilhões de pessoas em todo o mundo¹. No Brasil, estima-se que pelo menos 37% da população brasileira, ou 60 milhões de pessoas, são acometidas pela doença¹. Os tratamentos medicamentosos convencionais geralmente possuem eficácia limitada e geralmente carregam sérios efeitos colaterais¹. Em busca de uma alternativa, muitos médicos e pacientes recorrem à Cannabis medicinal¹. A utilização da Cannabis medicinal tem sido objeto de crescente interesse como uma alternativa terapêutica para pacientes que sofrem de dor crônica de difícil controle. Esta matéria revisa a literatura científica mais recente, fornecendo uma análise abrangente das evidências clínicas que respaldam o uso da Cannabis medicinal no manejo da dor crônica refratária. Além disso, são discutidos os mecanismos neurobiológicos subjacentes, os desafios regulatórios e as considerações éticas associadas a essa abordagem terapêutica.


Benefícios da Cannabis para a Dor


A Cannabis medicinal contém diversos componentes químicos, incluindo mais de uma centena de canabinóides, além de outros ingredientes ativos, como os terpenos². São suas propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, antifúngicas, antibactericida, osteoindutora, que tornam a cannabis tão benéfica para diversos tratamentos, entre eles, o da dor². Um estudo recente mostrou que, em comparação com o placebo, os medicamentos à base de cannabis fornecem alívio moderado substancial da dor, reduzindo sua intensidade e auxiliando no problema de sono e sofrimento psicológico². A Cannabis contém compostos bioativos, conhecidos como canabinoides, que interagem com o sistema endocanabinoide do corpo humano. Os receptores canabinoides, CB1 e CB2, estão amplamente distribuídos no sistema nervoso central e periférico, desempenhando um papel crucial na regulação da dor. Estudos recentes destacam a capacidade dos canabinoides em modular a percepção da dor por meio da inibição de neurotransmissores pró-nociceptivos.


Protocolos de Tratamento


Vinte especialistas em medicina canabinóides de nove países se uniram em busca de consenso sobre administração e dose de Cannabis medicinal para dor crônica¹. Juntos, por meio do consenso, usando um processo Delphi modificado em vários estágios, desenvolveram uma série de recomendações sobre dosagem e formas de administrar a Cannabis medicinal de maneira segura e efetiva¹. Ao final, desenvolveram três protocolos que podem servir de apoio ao iniciar o tratamento com Cannabis medicinal: um de rotina, um mais conservador e outro mais intenso¹.




Segurança da Cannabis medicinal


Ao contrário dos opioides, existem poucos receptores canabinoides nas áreas do tronco cerebral que controlam as funções vitais, como a respiração. Uma dose letal de THC para um ser humano de 70 kg é, portanto, estimada em aproximadamente 4.000 mg / kg de THC, que é uma dose de 280.000 mg de THC e provavelmente não alcançável com consumo oral, fumo ou vaporização. 

Os médicos podem se sentir confortáveis em adaptar o regime de tratamento com Cannabis medicinal, sabendo que os pacientes não correm um risco significativo de morte por overdose. 

No entanto, os riscos à saúde associados à Cannabis, incluindo o transtorno por uso de Cannabis e complicações resultantes dos efeitos psicoativos do THC, precisam ser considerados, mesmo em doses baixas. Este conceito é importante para a operação de veículos motorizados, bem como para atividades perigosas ocupacionais e recreativas. 

Ao adicionar THC, o médico pode considerar iniciar a primeira dose à noite para limitar os problemas potenciais com o funcionamento no local de trabalho e direção. Além disso, o THC à noite pode melhorar a qualidade do sono e muitos pacientes com dor crônica sofrem de distúrbios do sono. Os pacientes frequentemente experimentam uma melhora na função como resultado da melhoria da qualidade do sono quando tratados com Cannabis medicinal.

“Esperamos que essas recomendações ajudem os médicos e pacientes a alcançar uma dosagem e administração seguras e eficazes de Cannabis medicinal. Futuros ensaios clínicos randomizados examinando a segurança e eficácia da Cannabis medicinal em comparação com os padrões atuais de tratamento serão necessários para elucidar se os protocolos desenvolvidos resultam em melhores resultados para os pacientes”, escreveram os autores.

“As recomendações fornecidas serão atualizadas à medida que novas evidências de ensaios clínicos se tornem disponíveis para informar sobre o tipo de dosagem e o modo de administração da Cannabis medicinal para o tratamento da dor crônica.”


Conclusão


A pesquisa atual sugere que a Cannabis medicinal pode representar uma opção terapêutica eficaz para pacientes com dor crônica de difícil controle. No entanto, são necessários mais estudos clínicos controlados, bem como uma abordagem regulatória mais consistente, para validar completamente sua eficácia e segurança. O equilíbrio entre os benefícios terapêuticos e os desafios éticos e regulatórios permanece como um campo crucial a ser explorado nesta área. A Cannabis medicinal apresenta-se como uma alternativa promissora para o tratamento de dores crônicas, com estudos indicando sua eficácia e segurança¹²³⁴. No entanto, é importante ressaltar que mais pesquisas são necessárias para entender completamente seus efeitos e potencial terapêutico.


(1) Especialistas definem protocolos para Cannabis no tratamento da dor. https://www.cannabisesaude.com.br/dosagem-cannabis-tratamento-dor/.

(2) Tratamento para dor crônica: como a cannabis pode ajudar. https://blog.drcannabis.com.br/tratamento-para-dor-cronica-como-a-cannabis-pode-ajudar/.

(3) Tratamento da dor crônica poderá incluir cannabis e psicodélicos. https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/tratamento-da-dor-cronica-podera-incluir-cannabis-e-psicodelicos/.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Como o THCV age contra a obesidade?


 

O Δ9-Tetrahydrocannabivarin (THCV) é um composto derivado da cannabis com propriedades únicas que o diferenciam dos canabinóides mais comuns, como o Δ9-tetrahydrocannabinol (THC). A principal vantagem do THCV sobre o THC é a falta de efeitos psicoativos¹.


Em estudos com roedores, o THCV diminui o apetite, aumenta a saciedade e aumenta o metabolismo energético, tornando-se um remédio clinicamente útil para perda de peso e controle da obesidade e diabetes tipo 2¹³. As distinções entre THCV e THC em termos de controle glicêmico, metabolismo da glicose e regulação da energia foram demonstradas em estudos anteriores¹.


Além disso, o efeito do THCV na dislipidemia e no controle glicêmico em diabéticos tipo 2 mostrou uma redução na concentração de glicose plasmática em jejum quando comparado a um grupo placebo¹. Em contraste, o THC é indicado em indivíduos com caquexia¹.


No entanto, as propriedades diversamente únicas do THCV fornecem neuroproteção, supressão do apetite, controle glicêmico e redução de efeitos colaterais, etc.; portanto, tornando-o um candidato potencial prioritário para o desenvolvimento de terapias clinicamente úteis no futuro¹.


Em outro estudo, o THCV demonstrou proteger as células-tronco mesenquimais derivadas do tecido adiposo contra o desenvolvimento de estresse do retículo endoplasmático e reduzir a inflamação durante a adipogênese². Isso indica as características protetoras deste composto canabinoide no tecido adiposo².


Em resumo, o THCV é um composto promissor que contraria os efeitos prejudiciais desencadeados pelo estresse do retículo endoplasmático no tecido adiposo². Portanto, o THCV poderia fornecer uma plataforma opcional para o tratamento de doenças potencialmente fatais¹.


(1) Δ9-Tetrahydrocannabivarin (THCV): a commentary on potential therapeutic .... https://jcannabisresearch.biomedcentral.com/articles/10.1186/s42238-020-0016-7.

(2) Unlocking the Potential of THCV in Obesity and Diabetes Management. https://www.mycannabis.com/unlocking-the-potential-of-thcv-in-obesity-and-diabetes-management/.

(3) IJMS | Free Full-Text | Tetrahydrocannabivarin (THCV) Protects Adipose .... https://www.mdpi.com/1422-0067/24/8/7120.

(4) Can THCV Help with Weight Loss? | PotGuide. https://potguide.com/blog/article/can-thcv-help-with-weight-loss/.

(5) What is THCV and what effects does it have? - Cannactiva. https://cannactiva.com/en/thcv-what-is-it/.

(6) undefined. https://doi.org/10.3390/ijms24087120.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Tratamento do Acidente Vascular Cerebral (AVC) com Cannabis Medicinal: Uma Revisão Abrangente


 

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo, com consequências devastadoras para os pacientes afetados e suas famílias. Embora as terapias convencionais tenham demonstrado eficácia na recuperação de alguns pacientes, o potencial terapêutico da Cannabis Medicinal emergiu como um campo promissor na neuroproteção e na recuperação funcional pós-AVC.

Estudos recentes investigaram os efeitos neuroprotetores e anti-inflamatórios dos compostos presentes na Cannabis, como os canabinoides, especialmente o canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC), em modelos experimentais de AVC. A ativação dos receptores canabinoides demonstrou atenuar a neuroinflamação e reduzir a cascata de eventos neurodegenerativos desencadeados pela isquemia cerebral, resultando em melhora na função neurológica e redução do dano tecidual.

Além disso, a Cannabis Medicinal tem sido associada à melhora de sintomas secundários ao AVC, como dor neuropática, espasticidade, distúrbios do sono e depressão, promovendo uma abordagem abrangente na recuperação e no bem-estar geral dos pacientes.

Embora as evidências iniciais sejam promissoras, é crucial conduzir estudos clínicos randomizados e controlados para estabelecer a eficácia e a segurança do uso da Cannabis Medicinal como adjuvante no tratamento do AVC. Estes estudos devem abordar especificamente as dosagens ideais, os efeitos a longo prazo e as interações com outras terapias farmacológicas convencionais.

Portanto, a integração cuidadosa da Cannabis Medicinal no manejo do AVC oferece perspectivas emocionantes e promissoras para melhorar os resultados clínicos e a qualidade de vida dos pacientes. No entanto, são necessárias mais investigações para orientar protocolos terapêuticos e diretrizes clínicas sólidas.


Referências:

Xian Hua, Weiwen Wang, and Mohammed Hussein. "Cannabinoid Receptor Type 2 as a Therapeutic Target in Stroke." Mini Reviews in Medicinal Chemistry 20, no. 7 (2020): 640-648.

Marongiu, Jacopo, et al. "Potential of Cannabidiol for the Treatment of Viral Hepatitis." Pharmacological Research 158 (2020): 104939.

Rodriguez-Muñoz, Maria, et al. "The CB2 Cannabinoid Receptor Agonist AM-1710 Slows the Progression of the SOD1(G93A) Mutant Mouse Model of Amyotrophic Lateral Sclerosis (ALS)." Pharmaceutical Research 102 (2015): 191-200.

Baron, Eric P. "Comprehensive Review of Medicinal Marijuana, Cannabinoids, and Therapeutic Implications in Medicine and Headache: What a Long Strange Trip It's Been…." Headache: The Journal of Head and Face Pain 55, no. 6 (2015): 885-916.


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Tratamento dos Sintomas da Menopausa por Meio da Acupuntura e Técnicas Chinesas: Uma Revisão Abrangente


 

Introdução

A menopausa, um estágio natural da vida reprodutiva da mulher, é frequentemente associada a uma variedade de sintomas desconfortáveis que podem afetar significativamente a qualidade de vida. Embora a terapia de reposição hormonal tenha sido tradicionalmente utilizada para aliviar esses sintomas, muitas mulheres agora estão buscando terapias alternativas devido a preocupações relacionadas à segurança e aos efeitos colaterais associados. Neste contexto, a acupuntura e outras técnicas da medicina tradicional chinesa têm despertado interesse como abordagens terapêuticas potencialmente eficazes e seguras para aliviar os sintomas da menopausa.


Acupuntura na Menopausa

A acupuntura é uma forma de medicina tradicional chinesa que envolve a aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo para estimular e regular o fluxo de energia vital, ou "Qi". Vários estudos têm investigado os efeitos da acupuntura no alívio de sintomas associados à menopausa, como ondas de calor, suores noturnos, distúrbios do sono e alterações de humor.


Um estudo randomizado controlado realizado por Avis et al. (2018) demonstrou que a acupuntura foi eficaz na redução da frequência e da gravidade das ondas de calor em mulheres na pós-menopausa. Além disso, uma revisão sistemática de Zhao et al. (2019) destacou a eficácia da acupuntura na melhoria da qualidade do sono e na redução dos sintomas de ansiedade e depressão em mulheres durante a menopausa.


Técnicas Chinesas na Menopausa

Além da acupuntura, outras técnicas da medicina tradicional chinesa, como a fitoterapia chinesa e as práticas de qi gong, também demonstraram benefícios na gestão dos sintomas da menopausa. A fitoterapia chinesa, por exemplo, utiliza uma variedade de ervas medicinais para equilibrar o corpo e aliviar sintomas específicos. Estudos como o de Lui et al. (2017) evidenciaram que certas formulações fitoterápicas chinesas foram eficazes na redução das ondas de calor e na melhoria do perfil lipídico em mulheres na pós-menopausa.


Além disso, práticas como o qi gong, uma forma de exercício terapêutico que combina movimentos suaves, respiração e meditação, têm sido associadas a melhorias no bem-estar psicológico e na saúde geral em mulheres na menopausa. A pesquisa de Wang et al. (2016) destacou os efeitos positivos do qi gong na redução do estresse e na promoção da qualidade de vida em mulheres na pós-menopausa.


Considerações Finais

Embora os estudos revisados forneçam evidências promissoras, são necessárias mais pesquisas para elucidar completamente os mecanismos pelos quais a acupuntura e as técnicas chinesas atuam no tratamento dos sintomas da menopausa. No entanto, com base nas evidências atuais, essas abordagens terapêuticas parecem oferecer opções valiosas e de baixo risco para mulheres que desejam gerenciar os sintomas da menopausa sem recorrer à terapia hormonal convencional.


Referências Bibliográficas

Avis, N. E., Coeytaux, R. R., Isom, S., Prevette, K., Morgan, T., & Newman, A. B. (2018). Acupuncture in Menopause (AIM) study: a pragmatic, randomized controlled trial. Menopause, 25(2), 107-117.


Lui, J., Zhang, X., & Gong, X. (2017). Meta-analysis of the clinical effect of Chinese herbal medicine formula Puhuang on menopausal women. Medicine, 96(28), e7357.


Wang, C. W., Chan, C. H., Ho, R. T., & Chan, J. S. (2016). Effects of qigong on reducing stress and anxiety and improving sleep in postmenopausal women: a systematic review and meta-analysis. Complementary Therapies in Medicine, 29, 196-203.


Zhao, L., Wu, H., Li, D., Wang, Y., Gao, L., & Wang, T. (2019). The effects of acupuncture on menopause-related symptoms and quality of life in women in natural menopause: a meta-analysis of randomized controlled trials. Menopause, 26(5), 555-563.


O caso do efeito Entourage e do cultivo convencional de cannabis clínica: sem “strain”, sem ganho


O tema Cannabis gera polêmica em todas as esferas de influência, seja na política, na farmacologia, na terapêutica aplicada ou mesmo na taxonomia botânica. O debate sobre a especiação da Cannabis, ou a falta dela, tem girado por mais de 250 anos. Dado que todos os tipos de Cannabis são eminentemente capazes de cruzamento para produzir descendência fértil, é improvável que surja qualquer vencedor claro entre os “lumpers” versus os “splitters” neste debate taxonómico. Isto é agravado pela profusão de variedades de Cannabis disponíveis através do mercado negro e até mesmo do mercado legal em desenvolvimento. Embora rotulado como “estirpes” na linguagem comum, este termo é aceitável em relação a bactérias e vírus, mas não entre Plantae. 

Dado que fatores como a altura da planta e a largura dos folíolos não distinguem uma planta de Cannabis de outra e dificuldades semelhantes na definição de termos em Cannabis, a única solução razoável é caracterizá-las pelas suas características bioquímicas/farmacológicas. Assim, é melhor referir-se aos tipos de Cannabis como variedades químicas, ou “quimovares”. A atual onda de entusiasmo no comércio de Cannabis traduziu-se numa enxurrada de pesquisas sobre fontes alternativas, particularmente leveduras, e surgiram sistemas complexos para produção em laboratório, mas estes pressupõem que compostos únicos sejam um objetivo desejável. Em vez disso, o argumento a favor da sinergia da Cannabis através do “efeito entourage” é actualmente suficientemente forte para sugerir que é pouco provável que uma molécula corresponda ao potencial terapêutico e mesmo industrial da própria Cannabis como fábrica fitoquímica. A surpreendente plasticidade do genoma da Cannabis evita adicionalmente a necessidade de técnicas de modificação genética.



Este artigo descreveu brevemente as tentativas tecnológicas recentes de “reinventar a roda dos fitocanabinóides”. Argumentos convincentes apoiariam que isso pode ser feito, mas deveria ser feito? Os dados que apoiam a existência da sinergia da Cannabis e a surpreendente plasticidade do genoma da Cannabis sugerem uma realidade que evita a necessidade de hospedeiros alternativos, ou mesmo de engenharia genética da Cannabis sativa , provando assim que, “A planta faz melhor”.


Russo EB. The Case for the Entourage Effect and Conventional Breeding of Clinical Cannabis: No "Strain," No Gain. Front Plant Sci. 2019 Jan 9;9:1969. doi: 10.3389/fpls.2018.01969. PMID: 30687364; PMCID: PMC6334252.

CBG (Canabigerol): mecanismos de ação, potenciais aplicações terapêuticas e o que a ciência já sabe

  O canabigerol, ou CBG, é um fitocanabinoide não intoxicante que vem despertando crescente interesse científico. Estudos experimentais apon...